Quando um acordeon chega à oficina, eu não pego logo as ferramentas. Primeiro eu o seguro, abro e fecho o fole algumas vezes e escuto. O instrumento sempre conta o que sente, se falta ar, se alguma palheta está cansada, se há anos de abandono num armário.
Aprendi que consertar é, antes de tudo, escutar. Um acordeon não é uma máquina qualquer, é a voz de alguém. Muitos clientes chegam com a sanfona de um avô, de um pai, de um mestre querido. Eu entendo que não estou mexendo só em couro e metal, estou cuidando de uma memória.
Por isso explico cada passo ao dono do instrumento. Mostro a palheta gasta, o couro ressecado, a tecla que prende. Ninguém deve sair da oficina sem saber o que foi feito.
O fole é quase sempre o primeiro vilão. Com o tempo o couro resseca, a cola cede e o ar escapa pelas dobras. Parece pouca coisa, mas o músico passa a brigar com o instrumento. Trocar e vedar o fole devolve o prazer de tocar.
Depois vêm as palhetas. Cada uma é afinada com raspagem mínima, quase um carinho. Se tirar demais, não tem volta, então vamos devagar, comparando com o diapasão e com o ouvido, que ainda é o melhor aparelho que conheço.
Teclas e botões pedem regulagem fina para responder rápido e em silêncio. Feltros, molas e hastes são revisados um a um.
Gosto de dizer que um bom restauro é aquele que ninguém percebe: o músico simplesmente volta a tocar e esquece da oficina.
Também recomendo a quem está começando que não compre às cegas. Um acordeon usado pode ser uma joia ou uma dor de cabeça. Por isso acompanhamos a escolha, olhamos o fole, testamos as palhetas e dizemos com franqueza o que vale a pena.
Dou aulas há muito tempo e vejo sempre o mesmo: quem começa com um instrumento bem regulado aprende mais rápido. Fica menos cansado, desafina menos e se anima a continuar. Para o iniciante, uma sanfona de 8 baixos bem cuidada já abre um mundo de músicas.
Também alugamos acordeons para shows e gravações. Quem precisa de um modelo específico por alguns dias, ou de um instrumento reserva para o palco, encontra aqui um acordeon revisado, afinado e pronto. Entregamos com orientação e um breve teste, para que nada surpreenda ninguém no meio da apresentação.
Para quem toca todo dia, sugerimos um plano de manutenção, com revisões periódicas que evitam o susto de uma palheta quebrada antes do show.
No fim, o que me move é ver o instrumento voltando para as mãos do dono. O primeiro acorde depois do conserto é a minha recompensa. Se o seu acordeon está calado, venha nos visitar na Vila Mariana, tomar um café e conversar. Vamos fazer ele cantar de novo.
Lauro Bertolini